segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O diário de Catarina

Os dias se passavam e Catarina percebeu que precisava de algo para se distrair. Mas algo que fosse sério, algo que não fosse trabalho, mas que poderia lhe ajudar a decidir sobre os rumos da própria vida. “Como? De que maneira vou encontrar um hobby?” pensava.
Gostava de escrever e pensou em exercitar-se, faria disso a sua distração. “Está certo, o exercício da escrita é sempre interessante e há muito estou afastada dessa atividade que me parece tão vital”, pensou ela, decidida. Porém, não tinha deixado absolutamente de escrever. As desejadas traduções a realizar tinham ficado um pouco de lado, é verdade, talvez nem estivessem mais em segundo plano porque Catarina estava tomada pelo trabalho, como a maioria das pessoas nestes tempos infernais. Vez ou outra escrevia seus contos, críticas, resenhas e até ensaiava artigos acadêmicos.
Fato era que Catarina foi consumida por todas as outras coisas, totalmente absorvida pelo trabalho [do qual ela nem gostava tanto assim!] e se afastava do que tinha amor por fazer.
“Ah, já sei: vou escrever sobre filmes!”. Filmes? Cinema? “Já nem me lembro da última vez em que fui ao cinema, deve fazer muito tempo, ou o filme não foi tão bom assim” pensou, tentando se lembrar, pelo menos, qual tinha sido a última película assistida. “Argh, preciso me libertar destas coisas, tantas coisas...”.
Depois de tanto estresse por causa do trabalho e a desordem na sua vida, Catarina decidiu relembrar o que escrevia quando adolescente. Encontrou um diário dentro de uma caixa na biblioteca. “Ainda bem que só eu estou lendo isso, quanta bobagem, coisa de criança. Coisa de criança que não sabe pegar num lápis sequer...”, pensou, muito crítica consigo mesma [como sempre].
Lendo aquelas frases e sensações mesmo tão pueris manteve a decisão de voltar a escrever. “Um diário, é isso, assim ninguém precisa ler mesmo”, e um sorriso esboçou-se em seu rosto. Pronto. A missão agora era encontrar um diário ou caderno e pôr em prática sua decisão. Poderia escrever ficção científica [“mas não entendo nada desses termos científicos de blábláblá...” pensava] ou romance. Depois de ler seu diário antigo já tinha decidido que poesia “só as dos outros, eu não tenho vocação para isso”, pensou, sentenciando. Por fim, pensou que poderia escrever sobre qualquer coisa: o mundo, a política, a vida, os amigos... “eu estou aqui, no mundo, na rua, no ônibus, no barco, caminhando pela cidade. E o que eu vir e escrever, guardar, pode ser só uma impressão, pode ser ficção ou loucura, mas a vida é um pouco disso, né?”. Estava satisfeita, por enquanto.
“Melhor guardar esse diário horrendo”, ponderou. Antes, porém, de esquecer novamente o antigo diário, ela encontrou um trecho de um poema [de Cecília Meireles] do qual gostava bastante; este trecho serviria de epígrafe ao seu novo diário:
No mistério do sem-fim

equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta


4 comentários:

Vinicius disse...

Não imagino melhor introdução para este blog.

Gostei muito também do conceito dO Canteiro, da flora à fauna. Congratulações, Dona Margarida.

:)

Beijos e 'bora semear!

@ElaineNussbaum disse...

Vini, você não existe.

Brigada :)

Adelino Sanfoneiro disse...

“Um diário, é isso, assim ninguém precisa ler mesmo”. Discordo! Diários são como máquinas do tempo em que guardamos sentimentos para o futuro.

@ElaineNussbaum disse...

Tá certo, mas esse "ninguém" são os outros, não significa que ela não vá ler. Quem sabe um dia ela(eu)olhe para esse diário que quase ninguém lê e consiga compreender alguns desses sentimentos?!