- “Onde deixaste a
caneta, garoto?”.
- ...
- “Onde foi parar o
telefone? Eu, hein, parece que essas coisas andam sozinhas...”.
Cansada de procurar respostas e outros objetos pela casa,
senta-se no sofá e joga as pernas para o alto. Um som estranho começa a se
fazer presente, olha ao redor e não há ninguém. A fadiga provocada pela busca interminável
ao telefone não lhe permitiu compreender aquele som, que ora aumentava ora
diminuía. E a senhorinha, apesar de cansada, não parava de se mexer no sofá,
talvez fosse incômodo com aquele soar inconstante.
Incomodada com o som, com o sumiço do telefone, com o neto –
que ignorou sua pergunta e saiu para o quintal a brincar com os carrinhos –, e
com um caroço que surgiu de repente no sofá, ela se levantou. Em seguida deu
uma boa olhada naquilo que aparecera sem convite e fazia-se dono do seu
cantinho no sofá. Um controle remoto. É, não era o telefone tão desejado, mas
era, ao menos, a causa daquele barulho inconstante e insuportável.
“Ah, isso eu não procurava, mas ainda bem que achei”, disse
e saiu. Concentrada na busca pelo telefone foi até a porta da varanda: “Ô,
menino, você não viu o telefone, não?” ... A voz fraca não chegava aos ouvidos
do garoto que balançava os carros de polícia e ambulâncias para dar realidade à
sua brincadeira de desastres no trânsito.
Com o olhar perdido, fica parada na frente da porta, os
braços apoiados na soleira, cruzados para trás. O menino brincava feliz. Cada um
no seu mundo. Cada um esquecendo-se do que havia lá fora. A senhorinha só
olhava, não pensava em nada. Não pensava mais no telefone, não pensava no
controle remoto, no aparelho de som, na desatenção do neto. Ela só olhava, e
naquele instante sentiu-se livre, sentiu-se jovem, sentiu-se cheia de vontades.
Só com um olhar. E só às vezes olhava daquele jeito.
Depois que a vida foi seguindo, e as vontades deixadas de
lado, ela não lembrava mais como era ter aquele olhar, como era ver o mundo assim sem interesse. É o mundo mais bonito que ela já viu. E é diferente desse mundo
normal. Ela olhava às vezes assim e se perdia, perdia os pensamentos e os
deveres. Só depois de se dava conta de que estava imersa nesse mundo de
horizonte.
Então o telefone toca, e ela sai do transe. Volta a se
encontrar no mundo normal. Volta a ser a senhorinha de sempre. Quem sabe o que
lhe passou pela cabeça naqueles poucos instantes? O telefone toca. Toca, e não
para. Insiste. Ela desperta e sai apressada em busca daquilo que tinha se
transformado no objeto principal de sua tarde. Ao encontrar o telefone se
pergunta, frustrada:
- “Me diz, meu Deus, por que é que eu faço essas coisas?”
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