terça-feira, 6 de novembro de 2012

Só às vezes


- “Onde deixaste a caneta, garoto?”.
-  ...
-  “Onde foi parar o telefone? Eu, hein, parece que essas coisas andam sozinhas...”.

Cansada de procurar respostas e outros objetos pela casa, senta-se no sofá e joga as pernas para o alto. Um som estranho começa a se fazer presente, olha ao redor e não há ninguém. A fadiga provocada pela busca interminável ao telefone não lhe permitiu compreender aquele som, que ora aumentava ora diminuía. E a senhorinha, apesar de cansada, não parava de se mexer no sofá, talvez fosse incômodo com aquele soar inconstante.

Incomodada com o som, com o sumiço do telefone, com o neto – que ignorou sua pergunta e saiu para o quintal a brincar com os carrinhos –, e com um caroço que surgiu de repente no sofá, ela se levantou. Em seguida deu uma boa olhada naquilo que aparecera sem convite e fazia-se dono do seu cantinho no sofá. Um controle remoto. É, não era o telefone tão desejado, mas era, ao menos, a causa daquele barulho inconstante e insuportável.

“Ah, isso eu não procurava, mas ainda bem que achei”, disse e saiu. Concentrada na busca pelo telefone foi até a porta da varanda: “Ô, menino, você não viu o telefone, não?” ... A voz fraca não chegava aos ouvidos do garoto que balançava os carros de polícia e ambulâncias para dar realidade à sua brincadeira de desastres no trânsito.

Com o olhar perdido, fica parada na frente da porta, os braços apoiados na soleira, cruzados para trás. O menino brincava feliz. Cada um no seu mundo. Cada um esquecendo-se do que havia lá fora. A senhorinha só olhava, não pensava em nada. Não pensava mais no telefone, não pensava no controle remoto, no aparelho de som, na desatenção do neto. Ela só olhava, e naquele instante sentiu-se livre, sentiu-se jovem, sentiu-se cheia de vontades. Só com um olhar. E só às vezes olhava daquele jeito.

Depois que a vida foi seguindo, e as vontades deixadas de lado, ela não lembrava mais como era ter aquele olhar, como era ver o mundo assim sem interesse. É o mundo mais bonito que ela já viu. E é diferente desse mundo normal. Ela olhava às vezes assim e se perdia, perdia os pensamentos e os deveres. Só depois de se dava conta de que estava imersa nesse mundo de horizonte.

Então o telefone toca, e ela sai do transe. Volta a se encontrar no mundo normal. Volta a ser a senhorinha de sempre. Quem sabe o que lhe passou pela cabeça naqueles poucos instantes? O telefone toca. Toca, e não para. Insiste. Ela desperta e sai apressada em busca daquilo que tinha se transformado no objeto principal de sua tarde. Ao encontrar o telefone se pergunta, frustrada:

- “Me diz, meu Deus, por que é que eu faço essas coisas?”

Nenhum comentário: