quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Entre as nuvens

Vejo passar brilhante
um pássaro apressado no alto céu.
 - é seu caminho de todos os dias;
E eu me ponho a observá-lo.
Hoje só
que fui reparar no pássaro dourado.
Ele não pousa, passa todos os dias sobre minha janela
- passa somente por ter de passar.



domingo, 9 de dezembro de 2012

Deus está olhando


Num fim de tarde de um dia quente e bonito, aos poucos nuvens cinzentas aparecem no céu azul brilhante. Algumas gotas de chuva chegam a cair, mas não chegam a molhar. Não entristecem o dia. O sol não se foi de todo, está lento agora, faz uma longa pausa como se não quisesse ir embora. E não está mais sozinho.

Quando o céu fica assim, de manhã até a tarde, num azul radiante, no fim do dia cria uma linha rósea suave como que querendo deixar uma lembrança de todo esse dia. Os morros e prédios da cidade ali abaixo, os barcos e as igrejas, tudo, parecem um quadro; parecem obra do divino, ou seja lá que nome se dá. Mas que não é humano. Humano é quem vê, quem procura a beleza que não é sua. Nem mesmo a beleza da cidade e suas obras de arte em concreto.

Quando o céu fica assim e o sol se deixa envolver pelo cinzento que também deseja ser estrela, os carros param. O tempo para, e até os pássaros voam mais devagar para contemplar a harmonia desses encontros.

O céu, o sol, as nuvens, a cidade...

O sol até fica mais imponente, o rei não se entrega facilmente, encontra a fraqueza de quem o ataca. Ele não está mais na sua majestosa forma de bola amarela, é verdade, mas também não se deixa esconder pelas nuvens carregadas que o cercam. Ele dá um jeito, e participa da festa. Uma festa que celebraria sua rendição, virou a festa em sua contemplação  em que seus raios seduzem as nuvens, e elas, entregues, se deixam envolver e os deixam passar. Assim o rei brilha.

O rei e sua corte se despedem, o tempo, os carros e a cidade agora tem pressa, querem acompanhar o cortejo. Todos estão presentes, e partem, e não há mais o que desejar daqui de baixo. Os homens se esquecem de contemplar.

domingo, 18 de novembro de 2012

Carta para Bernard


Meu caro amigo Bernard,


Fiquei muito feliz em receber notícias tuas. Sinto sua falta. Sinto falta das nossas conversas de volta para casa, quando viajávamos daquele antigo trabalho que, com todas as contradições, nos ensinou e mostrou que fazíamos algo errado. E por isso se tornou um castigo.
Pegávamos o ônibus já tarde da noite para modestos trabalhadores e atravessávamos a baía, pela ponte com suas luzes de todos os lados, os faróis dos carros na pista oposta, as luzes dos barcos logo abaixo nas águas escuras, e as luzes dos prédios e das favelas ao longe. A gente da cidade que movimentava a roda do progresso.
Era delicioso ter alguém com quem dividir essas observações. E nos espantávamos ao observar todas aquelas luzes, e imaginar quanta gente dormia em suas casas, barracos, quantos ainda iam para casa, quantos saíam para trabalhar... Aquelas luzes, ai, me dão certa nostalgia desde aquele tempo. Desde que meu caminho de volta teve de ser feito só. Por aqui o trabalho continua, e o castigo também. E o caminho com suas luzes e sua gente.
Só o meu companheiro de ironias é que falta.
Li tua carta no caminho de volta para casa, e fiquei emocionada. Tuas palavras me fizeram companhia na noite passada, até que eu retornasse. Tuas palavras e as luzes distantes.
Mas diga como estão todos?
Mande lembranças a Virginia, sinto que ela está sempre por perto, e é como se ela soubesse mais sobre mim do que eu mesma. Ou, quem sabe ela saiba dizer melhor do que eu o que eu penso que sou. Você acha que é mentira minha isso? Deixa p’ra lá, no fundo só quero os aplausos para os arroubos que cometo, reconhecimento...  As vaias eu dispenso, nisso sei que sou boa.
Como está o tempo por aí?
Aqui a primavera começou não faz muito, e às vezes nem parece que ela chegou. Choveu muito nos últimos dias, e você sabe como eu fico em dias chuvosos. Eles desenham o estado da minha alma. Procuro os monstros escondidos todos, eu os encontro e liberto e silencio uns e outros. Catarina anda calada ultimamente, nos distanciamos nestes tempos. Ela não entende que o tempo passa diferente para cada um. Mas eu fico triste com isso, não gosto de ficar longe dela.
Enfim, a primavera chuvosa traz à tona todos os desejos que é para lavar a alma mesmo.
Fico por aqui, aguardando novidades das terras arenosas. Dê lembranças a todos.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Só às vezes


- “Onde deixaste a caneta, garoto?”.
-  ...
-  “Onde foi parar o telefone? Eu, hein, parece que essas coisas andam sozinhas...”.

Cansada de procurar respostas e outros objetos pela casa, senta-se no sofá e joga as pernas para o alto. Um som estranho começa a se fazer presente, olha ao redor e não há ninguém. A fadiga provocada pela busca interminável ao telefone não lhe permitiu compreender aquele som, que ora aumentava ora diminuía. E a senhorinha, apesar de cansada, não parava de se mexer no sofá, talvez fosse incômodo com aquele soar inconstante.

Incomodada com o som, com o sumiço do telefone, com o neto – que ignorou sua pergunta e saiu para o quintal a brincar com os carrinhos –, e com um caroço que surgiu de repente no sofá, ela se levantou. Em seguida deu uma boa olhada naquilo que aparecera sem convite e fazia-se dono do seu cantinho no sofá. Um controle remoto. É, não era o telefone tão desejado, mas era, ao menos, a causa daquele barulho inconstante e insuportável.

“Ah, isso eu não procurava, mas ainda bem que achei”, disse e saiu. Concentrada na busca pelo telefone foi até a porta da varanda: “Ô, menino, você não viu o telefone, não?” ... A voz fraca não chegava aos ouvidos do garoto que balançava os carros de polícia e ambulâncias para dar realidade à sua brincadeira de desastres no trânsito.

Com o olhar perdido, fica parada na frente da porta, os braços apoiados na soleira, cruzados para trás. O menino brincava feliz. Cada um no seu mundo. Cada um esquecendo-se do que havia lá fora. A senhorinha só olhava, não pensava em nada. Não pensava mais no telefone, não pensava no controle remoto, no aparelho de som, na desatenção do neto. Ela só olhava, e naquele instante sentiu-se livre, sentiu-se jovem, sentiu-se cheia de vontades. Só com um olhar. E só às vezes olhava daquele jeito.

Depois que a vida foi seguindo, e as vontades deixadas de lado, ela não lembrava mais como era ter aquele olhar, como era ver o mundo assim sem interesse. É o mundo mais bonito que ela já viu. E é diferente desse mundo normal. Ela olhava às vezes assim e se perdia, perdia os pensamentos e os deveres. Só depois de se dava conta de que estava imersa nesse mundo de horizonte.

Então o telefone toca, e ela sai do transe. Volta a se encontrar no mundo normal. Volta a ser a senhorinha de sempre. Quem sabe o que lhe passou pela cabeça naqueles poucos instantes? O telefone toca. Toca, e não para. Insiste. Ela desperta e sai apressada em busca daquilo que tinha se transformado no objeto principal de sua tarde. Ao encontrar o telefone se pergunta, frustrada:

- “Me diz, meu Deus, por que é que eu faço essas coisas?”

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Fim de Jogo


Como disse Susana uma vez “não vejo a hora de 21-12-2012 chegar...” e ela disse não pensando no fim do mundo anunciado pelos Maias, mas por outras razões, as mesmas que as de Rebeca. Essa data parecia tão longe. O tempo passa, passa e nunca de chegar o fatídico dia do fim dos tempos. 

Há gente que não acredita nisso, há quem acredite, e muitas interpretações surgem para a profecia. Uma delas, bem do agrado de Rebeca era de que um novo tempo estava para surgir. Mas, como muitas das conjeturas para o futuro, não se podia dizer se o porvir seria bom ou mau. Somente quando esse “novo tempo” surgisse é que se poderia verificar. E era nisso que Rebeca acreditava, num novo tempo que com seus planos seria certamente um tempo melhor. Mas em seguida pensava “e se o mundo acabar mesmo, com uma grande explosão, de que vão servir todos esses planos?”, e Rebeca voltava a se recolher com seus projetos e lágrimas, entre os cobertores.

O tempo corria, corria, e nada do fim do mundo. Os sinais apareciam por todos os lados. As mudanças no clima, nas ideias, nos pseudo-sentimentos de Rebeca. Às vezes ela até se esquecia de que algo grandioso poderia estar prestes a acontecer. Quando se lembrava disso, pensava no que ficaria para trás, se teria lembranças do que já passou. Acreditava realmente na grande explosão.

E assim seguia em frente.

Porém o ânimo, a alma, não é uma qualidade forte em Rebeca. E isso para ela era uma contradição. Quando pensava na sua falta de ânimo para viver, a vida ordinária, pensava no seu nome: Rebeca Monteiro. É um nome imponente. Um nome que ressoa, que reverbera entre as paredes do banheiro quando cantada. Um nome que não condizia com aquela figura magra, de cabelos pretos, lisos, compridos, de ombros encolhidos, sorriso tímido, palavras fechadas... Rebeca era mulher sem charme, sem volúpia e vez ou outra até sentia falta disso. Sentia falta das paixões que nunca conseguiu provocar, sentia falta da intensidade por amar, sentia falta de tesão no trabalho. Esse, o trabalho era uma atividade burocrática que Rebeca Monteiro realizava todos os dias das oito da manhã às cinco da tarde e era bem de acordo com sua imagem, de uma personalidade igualmente burocrática e morna. Quando chegasse o dia vinte e um de dezembro Rebeca já tinha planos. Não iria abandonar o emprego, certamente, mas faria algo diferente, algo intenso. Algo que mexesse com as emoções adormecidas desde sempre. Emoções, Rebeca até chegou a esquecer o que era isso. Por vezes se achava incapaz de sentir qualquer coisa. Não que não sentisse compaixão pelo próximo, pelos meninos que vendem doces nos sinais de trânsito, ou os velhinhos que são jogados ao chão pela velocidade com que os motoristas de ônibus dirigem. Esse tipo de “emoção” ela sentia, mas já eram coisas tão banais que Rebeca percebeu que passaram a fazer parte do ritual burocrático-administrativo vivido por ela todos os dias. A ideia de sentir seu corpo se arrepiar pela incerteza de uma promessa, ou de um olhar devorador de um estranho lhe faziam acreditar que havia uma identidade escondida de “Rebeca”. 

Ela não queria apenas esse tipo de emoção, não queria a compaixão, nem a sua nem a de outros. Ela queria ser capaz de levar um homem à loucura, ter o simples prazer de desprezar um canalha, andar na rua e ouvir um assobio vindo de uma construção. E pensava “no fundo, sou uma mulher simples”. Simples demais. Tão simples que não percebia a insanidade de se desejar tais coisas, que não percebia que sua busca era para além do desejo. Era uma descoberta.

Rebeca nunca tinha se dado conta de como sua existência andava a passos lentos, não por falta de acontecimentos ou escolhas, mas por escolhas – que levavam a acontecimentos – fáceis. Ela sempre escolheu não por um sonho, mas pelo que se apresenta primeiro, pelo que se apresenta sem dificuldades. E agora Rebeca percebia que seu mundo, este mundo de escolhas fáceis e de existência morna, estava prestes a acabar. Por outro lado, ela até preferia que o mundo explodisse verdadeiramente, e que não deixasse vestígios de nada, afinal, ela mesma, Rebeca Monteiro já estava prestes a deixar de existir, e não ficaria nenhuma lembrança sua. 

O tempo passava, e o fatídico dia se aproximava. O apito final soou e Rebeca |