sexta-feira, 29 de março de 2013

Deixa que a vida se encarrega


Meu avô contava muitas histórias. Histórias de quando eu estava muito longe de existir. E eu sempre gostei de ouvi-las. Algumas me deixavam angustiado, mas ouvia atentamente, ainda assim fascinado com coisas diferentes das que eu conhecia. As imagens e pessoas se criavam na minha mente num mundo cheio de cores e de caretas. Meu avô ainda tinha bastante energia, e nossas conversas duravam horas e mais horas. Ele sentado em sua cadeira de balanço e eu ali no chão, ao pé dele. Mesmo as conversas mais banais também nos levavam a debates longos e vigorosos. Ele dizia que gostava quando discutíamos. Mas em geral era ele falando e eu ali sentado ao lado ouvindo.
O vô acordava cedo e depois de beber um só gole de café ia limpar o quintal e cuidar da horta. Depois almoçava. Depois do almoço sentava-se no sofá do quarto com a companhia de um livro e logo pegava no sono. Quando acordava beliscava um pedaço de pão que ficava sobre a mesa, bebia outro gole de café e arrastava sua velha cadeira de balanço para a varanda. Parou de trabalhar na feira, mas não abandonou nem a horta, nem as histórias.
Ali ficava com a caneca de café vazia até não ter mais estrela.
Ele contava quase sempre a mesma coisa, de como os pais dele vieram da roça e de como ele criou meu pai só cuidando de jardins e trabalhando nas feiras pela cidade.
Lá no quintal dos fundos tinha uma horta pequena, mas que o vô cuidava com carinho todos os dias. Ele sempre cultivou ali. E foi com aquela horta que criou os filhos. Com a horta, com a feira e com as histórias. E ele continuou fazendo isso por muito tempo ainda.
Quando chegava o fim de semana eu ia para a casa dos meus avós, ansioso por ouvir aquelas histórias. Tempos depois descobri que não eram as histórias que me fascinavam. Era estar ali com o meu avô. Era aquele momento que nos unia tão intimamente.
Acho que nunca o beijei ou fui beijado por ele. Para dizer a verdade, ele não tinha muito jeito para isso, não era o tipo de pessoa que tem tato, que é afetuosa com os outros. Isso é engraçado, porque ao mesmo tempo em que eu não me lembro de ter visto o vô demonstrando afeto por ninguém – a não ser minha vó, a quem ele beijava a testa todos os dias antes das refeições, ele devia estar agradecendo, não sei – lembro-me dele como alguém muito carinhoso, de um jeito peculiar, talvez.
Mas, exceto por essas demonstrações com a minha avó ele não fazia o mesmo nem com as filhas e menos ainda com os filhos homens; nem os netos o amoleciam, essas crianças às vezes imprudentes que abraçam os seus esperando o mesmo gesto. Parecem duas pessoas: um é austero e fala pouco com os filhos; o outro é jovial, conta as histórias do João-sem-dente lá da feira e sempre me olha direto nos olhos como que para me fazer entender aquela lição.
Eu sempre ficava ansioso para chegar o fim de semana ou as férias, porque era quando eu passava mais tempo com ele.
No nosso último final de semana ele estava calado, não conversamos muito. Fiquei triste, de um jeito involuntário eu esperava por aquilo, não queria que acabasse. O vô ficou o sábado inteiro calado, fez tudo como sempre fazia: um gole de café à tarde depois da sesta e sentou-se na cadeira de balanço na varanda. Não falou muito, não teve história alguma. À noite, antes de dormir ele foi até o quartinho onde eu dormia, sentou-se na beira da cama, segurou forte a minha mão e me disse boa noite. No dia seguinte, quando acordei e ele ainda não tinha se levantado fui até o quarto dele e exigi uma história, uma conversa que fosse. Com os olhos pequenos e voz bem baixa ele disse: “hoje não, criança”. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Entre as nuvens

Vejo passar brilhante
um pássaro apressado no alto céu.
 - é seu caminho de todos os dias;
E eu me ponho a observá-lo.
Hoje só
que fui reparar no pássaro dourado.
Ele não pousa, passa todos os dias sobre minha janela
- passa somente por ter de passar.



domingo, 9 de dezembro de 2012

Deus está olhando


Num fim de tarde de um dia quente e bonito, aos poucos nuvens cinzentas aparecem no céu azul brilhante. Algumas gotas de chuva chegam a cair, mas não chegam a molhar. Não entristecem o dia. O sol não se foi de todo, está lento agora, faz uma longa pausa como se não quisesse ir embora. E não está mais sozinho.

Quando o céu fica assim, de manhã até a tarde, num azul radiante, no fim do dia cria uma linha rósea suave como que querendo deixar uma lembrança de todo esse dia. Os morros e prédios da cidade ali abaixo, os barcos e as igrejas, tudo, parecem um quadro; parecem obra do divino, ou seja lá que nome se dá. Mas que não é humano. Humano é quem vê, quem procura a beleza que não é sua. Nem mesmo a beleza da cidade e suas obras de arte em concreto.

Quando o céu fica assim e o sol se deixa envolver pelo cinzento que também deseja ser estrela, os carros param. O tempo para, e até os pássaros voam mais devagar para contemplar a harmonia desses encontros.

O céu, o sol, as nuvens, a cidade...

O sol até fica mais imponente, o rei não se entrega facilmente, encontra a fraqueza de quem o ataca. Ele não está mais na sua majestosa forma de bola amarela, é verdade, mas também não se deixa esconder pelas nuvens carregadas que o cercam. Ele dá um jeito, e participa da festa. Uma festa que celebraria sua rendição, virou a festa em sua contemplação  em que seus raios seduzem as nuvens, e elas, entregues, se deixam envolver e os deixam passar. Assim o rei brilha.

O rei e sua corte se despedem, o tempo, os carros e a cidade agora tem pressa, querem acompanhar o cortejo. Todos estão presentes, e partem, e não há mais o que desejar daqui de baixo. Os homens se esquecem de contemplar.

domingo, 18 de novembro de 2012

Carta para Bernard


Meu caro amigo Bernard,


Fiquei muito feliz em receber notícias tuas. Sinto sua falta. Sinto falta das nossas conversas de volta para casa, quando viajávamos daquele antigo trabalho que, com todas as contradições, nos ensinou e mostrou que fazíamos algo errado. E por isso se tornou um castigo.
Pegávamos o ônibus já tarde da noite para modestos trabalhadores e atravessávamos a baía, pela ponte com suas luzes de todos os lados, os faróis dos carros na pista oposta, as luzes dos barcos logo abaixo nas águas escuras, e as luzes dos prédios e das favelas ao longe. A gente da cidade que movimentava a roda do progresso.
Era delicioso ter alguém com quem dividir essas observações. E nos espantávamos ao observar todas aquelas luzes, e imaginar quanta gente dormia em suas casas, barracos, quantos ainda iam para casa, quantos saíam para trabalhar... Aquelas luzes, ai, me dão certa nostalgia desde aquele tempo. Desde que meu caminho de volta teve de ser feito só. Por aqui o trabalho continua, e o castigo também. E o caminho com suas luzes e sua gente.
Só o meu companheiro de ironias é que falta.
Li tua carta no caminho de volta para casa, e fiquei emocionada. Tuas palavras me fizeram companhia na noite passada, até que eu retornasse. Tuas palavras e as luzes distantes.
Mas diga como estão todos?
Mande lembranças a Virginia, sinto que ela está sempre por perto, e é como se ela soubesse mais sobre mim do que eu mesma. Ou, quem sabe ela saiba dizer melhor do que eu o que eu penso que sou. Você acha que é mentira minha isso? Deixa p’ra lá, no fundo só quero os aplausos para os arroubos que cometo, reconhecimento...  As vaias eu dispenso, nisso sei que sou boa.
Como está o tempo por aí?
Aqui a primavera começou não faz muito, e às vezes nem parece que ela chegou. Choveu muito nos últimos dias, e você sabe como eu fico em dias chuvosos. Eles desenham o estado da minha alma. Procuro os monstros escondidos todos, eu os encontro e liberto e silencio uns e outros. Catarina anda calada ultimamente, nos distanciamos nestes tempos. Ela não entende que o tempo passa diferente para cada um. Mas eu fico triste com isso, não gosto de ficar longe dela.
Enfim, a primavera chuvosa traz à tona todos os desejos que é para lavar a alma mesmo.
Fico por aqui, aguardando novidades das terras arenosas. Dê lembranças a todos.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Só às vezes


- “Onde deixaste a caneta, garoto?”.
-  ...
-  “Onde foi parar o telefone? Eu, hein, parece que essas coisas andam sozinhas...”.

Cansada de procurar respostas e outros objetos pela casa, senta-se no sofá e joga as pernas para o alto. Um som estranho começa a se fazer presente, olha ao redor e não há ninguém. A fadiga provocada pela busca interminável ao telefone não lhe permitiu compreender aquele som, que ora aumentava ora diminuía. E a senhorinha, apesar de cansada, não parava de se mexer no sofá, talvez fosse incômodo com aquele soar inconstante.

Incomodada com o som, com o sumiço do telefone, com o neto – que ignorou sua pergunta e saiu para o quintal a brincar com os carrinhos –, e com um caroço que surgiu de repente no sofá, ela se levantou. Em seguida deu uma boa olhada naquilo que aparecera sem convite e fazia-se dono do seu cantinho no sofá. Um controle remoto. É, não era o telefone tão desejado, mas era, ao menos, a causa daquele barulho inconstante e insuportável.

“Ah, isso eu não procurava, mas ainda bem que achei”, disse e saiu. Concentrada na busca pelo telefone foi até a porta da varanda: “Ô, menino, você não viu o telefone, não?” ... A voz fraca não chegava aos ouvidos do garoto que balançava os carros de polícia e ambulâncias para dar realidade à sua brincadeira de desastres no trânsito.

Com o olhar perdido, fica parada na frente da porta, os braços apoiados na soleira, cruzados para trás. O menino brincava feliz. Cada um no seu mundo. Cada um esquecendo-se do que havia lá fora. A senhorinha só olhava, não pensava em nada. Não pensava mais no telefone, não pensava no controle remoto, no aparelho de som, na desatenção do neto. Ela só olhava, e naquele instante sentiu-se livre, sentiu-se jovem, sentiu-se cheia de vontades. Só com um olhar. E só às vezes olhava daquele jeito.

Depois que a vida foi seguindo, e as vontades deixadas de lado, ela não lembrava mais como era ter aquele olhar, como era ver o mundo assim sem interesse. É o mundo mais bonito que ela já viu. E é diferente desse mundo normal. Ela olhava às vezes assim e se perdia, perdia os pensamentos e os deveres. Só depois de se dava conta de que estava imersa nesse mundo de horizonte.

Então o telefone toca, e ela sai do transe. Volta a se encontrar no mundo normal. Volta a ser a senhorinha de sempre. Quem sabe o que lhe passou pela cabeça naqueles poucos instantes? O telefone toca. Toca, e não para. Insiste. Ela desperta e sai apressada em busca daquilo que tinha se transformado no objeto principal de sua tarde. Ao encontrar o telefone se pergunta, frustrada:

- “Me diz, meu Deus, por que é que eu faço essas coisas?”