terça-feira, 27 de agosto de 2013
Conversa de casal II
Depois de arrumada a casa, Ela desembaraça os cabelos, Ele lê.
Ela: Quando eu estava em casa, mamãe é que desembaraçava meu cabelo.
Ele: Tá com saudades dela, né...
Ela: É...
Ele: ... pra desembaraçar seu cabelo, né?!
Ela: É...
Ele: ... e pra arrumar a casa...
Ela: É...Maldade, né?!
Ele: É maldade... Eu sei que não é só por isso, cê tá com saudade dela mesmo...
Ela: É, tô...
Ele: Eu também. Pra fazer a comida.
Pano rápido.
sábado, 24 de agosto de 2013
O pacto de James e Cam
Nota: o texto abaixo não é de minha autoria, é uma tradução que fiz de parte do romance "Ao Farol" (To the Lighthouse), de Virginia Woolf. A tradução apresentada aqui corresponde ao capítulo 4 da parte III. O capítulo não tem título originalmente, criei este título ("O pacto de James e Cam") apenas para colocar aqui no blog.
As
velas tremulavam sobre suas cabeças. A água ria e batia nos lados do barco que
repousava quase inerte sob o sol. De vez em quando as velas se agitavam com uma
leve brisa, mas a marola avançava sobre elas e cessava. O barco não se mexia
mais. Sr. Ramsay sentava-se no centro do barco. E logo ficaria impaciente,
James pensou, e também Cam olhando para o pai que se sentou com as pernas
cruzadas no meio do barco entre eles (James desviou para a popa; Cam sentou-se
sozinha na proa). Ele detestava fazer as pessoas esperarem. E, certamente,
depois de um segundo ou dois daquela inquietação, ele falaria alguma grosseria
ao filho de Macalister que pegou os remos e começou a remar. Mas eles sabiam
que o pai nunca ficaria satisfeito até estarem a todo vapor novamente. Ele
continuava procurando por uma brisa, inquieto, resmungando coisas que
Macalister e o filho acabariam escutando, e ficariam constrangidos. Ele os fez
vir. Ele os forçou a virem. Com raiva, eles queriam que os ventos nunca mais
soprassem, assim o pai se sentiria contrariado de todos os modos possíveis, já
que os tinha forçado a vir contra a vontade.
Durante
todo o caminho pela praia eles ficavam para trás, juntos, embora Sr. Ramsay
insistisse com os olhos: “Andem, andem”. Tinham as cabeças inclinadas para
baixo, como que esmagadas por algum impiedoso vendaval. Falar com ele, não
conseguiam. Deviam continuar; deviam seguir. Eles tiveram de caminhar pela
praia atrás do pai, carregando pacotes de papel pardo. . Mas juraram em
silêncio enquanto caminhavam se apoiarem e suportarem o pacto – resistir à
tirania até a morte. Assim eles se sentaram nas extremidades opostas do barco,
um de frente para o outro, em silêncio. Eles não diziam nada, apenas olhavam
vez ou outra para onde o pai estava sentado com as pernas cruzadas, agitado,
franzindo a testa, resmungando e sussurrando impacientemente coisas para ele
mesmo, e esperando sôfrego por uma brisa. E eles desejavam a calmaria.
Desejavam que ele se sentisse frustrado. Desejavam que toda a expedição fracassasse,
aí teriam de voltar com seus pacotes pela praia.
Mas
agora que o filho de Macalister remava em outra direção, as velas balançavam
lentamente, o barco apressando-se, bordejou e seguiu veloz. Sr. Ramsay
descruzou as pernas, pegou sua bolsa de tabaco, segurou-a com um pequeno grunhido
para Macalister, e eles perceberam, sofrendo, que o pai estava completamente
satisfeito. Agora velejariam assim por horas, e Sr. Ramsay perguntaria ao velho
Macalister alguma coisa – provavelmente sobre a terrível tempestade do inverno
passado – e o velho Macalister o responderia e fumariam seus cachimbos juntos e
Macalister pegaria uma corda de alcatrão, começaria a fazer e a desfazer nós; o
filho dele iria pescar e não dizer mais nenhuma palavra. James se veria forçado
a manter os olhos todo o tempo nas velas. Pois se ele esquecesse, as velas
iriam franzir e tremer, e o barco diminuiria a velocidade, e Sr. Ramsay diria
rispidamente, “Cuidado! Cuidado!” e o velho Macalister se viraria lentamente de
seu lugar. Então escutaram Sr. Ramsay perguntando das casas, da grande
tempestade no Natal. “Chegou bem naquele ponto”, disse o velho Macalister
descrevendo a grande tempestade no último Natal quando dez barcos entraram pela
baía em busca de abrigo, e ele viu “um aqui, um ali, outro lá” (ele apontava
para o entorno da baía. Sr. Ramsay o seguia com a cabeça). Ele viu três homens
agarrados ao mastro. Então a tempestade foi embora. “E no fim nós soltamos o
barco”, ele continuava (na raiva e no silêncio, James e Cam apenas suspiravam
qualquer coisa, sentados nas extremidades do barco, unidos pelo pacto de lutar
contra a tirania até a morte). Por fim, eles pularam do barco, lançaram o bote
salva-vidas e escaparam dali – Macalister contou a história; e embora James e
Cam tivessem apenas suspirado uma palavra aqui e ali, estavam conscientes o
tempo inteiro do seu pai – de como Sr. Ramsay se inclinava para lá e para cá,
se encostava, de como sintonizava a própria voz com a de Macalister, como
soprava o cachimbo, e olhava ali e acolá para onde Macalister apontava; ele se
regozijava ao pensar na tempestade, na noite escura e nos pescadores se
esforçando naquela noite. Ele gostava da ideia de que os homens trabalhassem e
suassem na praia tempestuosa à noite, usando os músculos e o cérebro contra o
temporal; ele gostava da ideia de que os homens trabalhassem daquele jeito, e
as mulheres cuidassem da casa, e se sentassem ao lado da cama enquanto as
crianças dormiam, enquanto os homens se afogavam na tempestade. James e Cam
eram capazes de perceber isso (ambos o olhavam, e olhavam um para o outro), a
agitação e a vigilância, e o zunir do tom da voz dele, e até certo sotaque
escocês que o fazia parecer um camponês quando ele perguntava a Macalister
sobre os onze barcos que foram empurrados para a baía durante a tempestade.
Três sucumbiram.
Sr.
Ramsay olhava orgulhoso para onde Macalister apontava; e Cam pensou, sentindo
orgulho do pai sem saber exatamente por quê, que se ele estivesse lá teria
lançado o bote salva-vidas e chegado até o local do naufrágio. Ele era tão
corajoso e aventureiro, pensou. Mas de repente se lembrou. Havia o pacto:
resistir à tirania até a morte. Estavam repletos de ressentimento. Eles foram
forçados; foram obrigados. Ele os mantinha novamente sob sua tristeza e autoridade,
obrigando-os a cumprir ordens nesta bela manhã só porque ele queria dessa
forma, obrigados a carregar esses pacotes para o Farol; fazer parte dos rituais,
que realizava para seu próprio prazer, em memória dos mortos e que eles odiavam
tanto que se atrasavam, e todo o gozo daquele dia se perdia.
Sim, a
brisa era refrescante. O barco se inclinava, cortava a água que caía em
cascatas verdes, em bolhas, em cataratas. Cam olhou para baixo, dentro da
espuma, dentro do mar com todos os seus tesouros lá embaixo, e a velocidade a
hipnotizou, e o laço entre ela e James cedia. Afrouxava-se. Ela começou a
pensar: como estamos indo rápido. Para onde vamos? E o movimento a hipnotizava,
enquanto James, com os olhos fixos na vela e no horizonte, pilotava contrariado.
Mas ele começou a pensar, enquanto conduzia o barco, que precisava escapar; ele
devia dar um basta em tudo isso. Poderiam atracar em algum lugar; e seriam
livres. Eles se entreolharam por um segundo e tiveram a sensação de fuga e
encantamento, por causa da velocidade ou da mudança. Mas a brisa provocava
exaltação também em Sr. Ramsay, e, quando o velho Macalister virou para jogar a
linha ao mar, ele gritou, “perecemos!”, e outra vez, “sozinhos”. E então, num
de seus arroubos habituais de arrependimento e timidez, levantou-se e balançou
as mãos em direção à praia.
“Veja
como a casa parece pequena”, disse apontando querendo que Cam olhasse também.
Ela se levantou relutante e olhou. Mas, qual era? Ela não conseguia distinguir
qual era a sua casa, que ficava naquela colina. Tudo parecia distante, calmo e
estranho. A praia parecia agora de uma sutileza distante e irreal. Aquela pouca
distância que tinham navegado os levou para longe da praia, e mudou o olhar, o
aspecto composto e recuado do qual não se faz mais parte. Qual era sua casa?
Ela não conseguia vê-la.
“Mas
eu, no mar bravio”, Sr. Ramsay murmurou. Tinha encontrado a casa e a olhava, também viu a si mesmo lá. Viu-se
sozinho andando pela varanda da casa. Andava de um lado para outro por entre os
vasos; e sentia-se muito velho e curvado. Sentando-se no barco agachou-se abraçando os joelhos, representando
seu papel – o papel de um homem desolado, viúvo, desesperado; e voltava a si
quando os outros começavam a sentir pena dele; fez papel dele mesmo, enquanto
esteve sentado no barco, que exigia da sua decrepitude, cansaço e lamento um
pequeno drama (levantou as mãos e percebeu a fraqueza delas, a fim de confirmar
aquele sonho) e como recebia em abundância a compaixão das mulheres, imaginou que elas se compadeciam dele. E,
assim, misturando algum sonho com esse estranho prazer que tinha pela compaixão
feminina, suspirou, e disse gentil e chorosamente,
Mas eu, no mar bravio, afundo
Submerso nos mais profundos
golfos,
As palavras lamuriosas foram
ouvidas por todos. Cam, do seu banco, se assustou. Isto a chocou, a ultrajou. A
manobra inflamou o pai; e ele tremeu, e parou gritando: “Olhem! Olhem!” tão
urgente que até James virou a cabeça para olhar por sobre o ombro a ilha. Todos
olharam. Todos olhavam para a ilha.
Mas
Cam não conseguia ver nada. Ela pensava em como todas aquelas trilhas e o
gramado, densos e atados às vidas que eles viveram ali, tinham acabado: foram
apagados; estavam no passado; eram irreais e agora isso é que era real; o barco
e a vela com seus remendos; Macalister com seus brincos; o barulho das ondas –
tudo isso era real. Pensando nisso, ela murmurava para si “perecemos, sozinhos”,
pois as palavras do pai voltavam a cada instante em sua mente, quando ele,
vendo que ela o encarava indiferente, começou a chateá-la. Ela não sabia os
pontos cardeais?, ele perguntou. Ela não sabia nem onde era o norte ou o sul?
Ela realmente acreditava que eles viviam naquela direção? E apontou outra vez,
mostrando onde a casa ficava, a casa deles estava ali entre algumas árvores.
Ele gostaria que ela fosse mais esperta, disse: “Diga-me – onde fica o leste, e
onde fica oeste?” disse, meio rindo-se dela, meio criticando, pois não lhe
ocorria que alguém, que não era um imbecil absolutamente, não soubesse quais
eram os pontos cardeais. Ela continuava sem saber. E percebendo seu olhar fixo,
inexpressivo e agora mais assustado, olhos fixos para onde não havia casa, Sr.
Ramsay se esqueceu do sonho, e de como ele andava entre os vasos da varanda de
um lado para outro; como os braços estavam esticados para ele. Ele pensou: as
mulheres são assim, a incompetência delas é irritante; e ele nunca foi capaz de
entendê-las. Foi assim com ela – com sua esposa. Elas não conseguem ter nada
claro na mente. Mas ele estava errado por se irritar assim; além do mais não
gostava dessa patetice nas mulheres? Era algo extraordinariamente charmoso. Vou
fazê-la sorrir para mim, pensou. Ela parece assustada. Ela estava tão quieta.
Apertou-lhe os dedos e decidiu que sua voz, rosto e todos os gestos rápidos,
que faziam as outras se compadecerem dele e elogiarem-no todos esses anos,
deveriam mudar. Ele a faria sorrir para ele. Encontraria alguma coisa simples e
fácil para dizer. Mas o quê? Pois, envolvido que estava com o trabalho ele
esqueceu que tipo de coisa se diz. Havia um filhote de cachorro. Eles tinham um
cachorrinho. Quem estava cuidando dele hoje?, perguntou. Sim, pensou James
impiedosamente, vendo a cabeça da irmã diante da vela, agora ela não vai mais
resistir. Eu vou ter de lutar sozinho contra o tirano. O pacto seria deixado de
lado. Cam nunca resistiria contra o tirano até a morte, pensou James de um
jeito mordaz, observando o rosto da irmã, triste, pálido, frágil. Como
acontece, às vezes, quando uma nuvem deita sobre um monte verde, desaba a
austeridade e ali entre todas as colinas em volta há melancolia e lamento, e é
como se as montanhas é que devessem pensar no destino do que as nuvens
esconderam, a escuridão, seja por piedade ou malícia se alegra com a tristeza
delas: agora Cam se sentia assim nebulosa, sentada ali entre pessoas resolutas
e calmas, e queria saber como responder ao pai sobre o cachorrinho, queria
saber como resistir a essa urgência dele – perdoe-me, cuide do cachorrinho para
mim; enquanto James, o legislador, com as tábuas da sabedoria eterna sobre os
joelhos (a mão sobre a caixa do leme se tornou simbólica para ela), dizia,
Resista. Lute contra ele. Ele o dizia com tanta firmeza e justiça. Pois eles
devem lutar contra o tirano até a morte, ela pensou. De todas as qualidades
humanas a justiça era a que ela mais reverenciava. Seu irmão era quase divino,
o pai um suplicante. E em direção a quem ela iria?, pensou sentada diante deles,
olhando para a costa cujos pontos lhe eram todos desconhecidos, e pensando como
o gramado, a varanda e a casa estavam agora em evidência, e a paz voltava para
aquele lugar.
“Jasper”,
ela disse tristemente “ele ia cuidar do cãozinho”.
E como
iria chamá-lo? O pai insistiu. Ele teve um cachorro quando era criança que se
chamava Frisk. Ela vai ceder, pensou James no mesmo instante em que percebeu o
olhar dela, um olhar do qual ele se lembrava. Elas olham para baixo, ele
pensou, para o tricô ou algo parecido e então voltam a olhar para cima. Havia
um raio azul, se lembrou de alguém que sentou com ele e riu, rendeu-se, e ficou
muito bravo. Deve ter sido sua mãe, pensou, sentando-se numa cadeira baixa com
seu pai diante dela. Começou a procurar por entre infinitas séries de
percepções, folha por folha, dobra por dobra, suave e incessantemente pelo
cérebro; entre cheiros, sons; vozes ásperas, inconstantes, doces; e as luzes
passando, e batidas de vassoura; e o olhar e o silenciar do mar; e um homem que
tinha marchado de um lado a outro e ficou de pé, imóvel, diante deles. Enquanto
isso, ele via que Cam metia os dedos na água encarando a costa e não dizia
nada. Não, ela não vai se entregar, ele pensou; ela é diferente, ele pensou.
Bem, se Cam não queria responder, não mais a perturbaria, decidiu Sr. Ramsay procurando
por um livro no bolso. Mas ela queria responder, ela desejava apaixonadamente
mover qualquer obstáculo que freava sua língua para falar, Oh sim, Frisk. Vou
chamá-lo assim, ela queria dizer, Não era esse o cachorro que você encontrou
sozinho no brejo? Mas mesmo tentando, ela não conseguia pensar em nada para
dizer, era feroz e leal ao pacto, mas queria transmitir ao pai uma prova do
amor que sentia por ele, sem que James suspeitasse. Ela pensou, mergulhando a
mão (e agora o filho de Macalister pegava um peixe que ficou se batendo no chão
sangrando pelas guelras), olhando para James – que mantinha os olhos calmos na
vela, ou olhava de vez em quando o horizonte, você não está exposto a isso, a
essa pressão e divisão de sentimentos, a essa extraordinária tentação. Seu pai
estava mexendo nos bolsos; logo encontraria o livro. Ninguém a atraía mais, as
mãos dele eram bonitas e também os pés, a voz, as palavras e a pressa, o
temperamento, a estranheza, a paixão, ele gritando diante de todos: nós
perecemos sozinhos; e sua distância. (Ele abriu o livro.) Mas o que continuava
intolerável, ela pensou agitando-se e assistindo ao filho de Macalister puxar o
anzol das guelras de outro peixe, era essa rude cegueira e a tirania dele que
envenenavam sua infância e faziam surgir tempestades cada vez mais fortes,
tanto que mesmo agora ela despertava à noite, tremendo de raiva e lembrando
algumas ordens dele; alguma insolência: “faça isso”, “faça aquilo”; seu
controle: “submeta-se a mim”.
Então
ela não disse nada, mas olhou obstinada e tristemente para a praia, enrolada
num manto de paz; como se as pessoas lá tivessem dormido, ela pensou que seriam
livres como fumaça, livres para ir e vir como fantasmas. Eles não sofrem, pensou.
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Conversa de Casal - Discussão
Ele: Tsc!
Ela: ...
Ele: Tsc!Tsc!
Ela: Tsc, o que?
Ele: Você tá fazendo “tsc”, por quê?
Ela: Porque sim, oras, deixa de ser implicante.
Ele: Eu sou implicante.
Ela: Que coisa.
Ele: Coisa, não, eu sou coiso. Coisa é você!
Ela: Eu não sou coisa, eu sou Pessoa.
*Texto escrito em parceria com o Coiso.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Terra estrangeira
Julia caminhava aquele dia sem pensar no destino. Saiu de casa disposta a andar pela vizinhança sem se importar muito com o tempo que demoraria nem com o que encontraria, ou onde pararia. Ela apenas caminhava, e assim chegou a uma ampla praça. A praça tinha cheiro de terra molhada e Julia se deu conta de que não conhecia aquele lugar. Engraçado, porque todo o resto do caminho era tão familiar que ela sequer pensou estar perdida.
Parou um instante para observar com cuidado todo o lugar. Era uma bela praça, e muito tranquila, não passava muita gente por ali. Ficou surpresa novamente por não se lembrar daquela praça em nenhum momento anterior, e ela morava ali no bairro há bastante tempo.
A praça era
meio escondida, no meio de uma rua fechada. Havia um prédio alto de três
andares que preenchia toda a rua, no centro tinha uma fonte redonda, com uma
estátua não muito alta rodeada por um pedaço de mármore – a fonte estava seca, não era usada há algum tempo –, dos lados esquerdo e direito prédios não muito grandes cercavam a praça. No lado
esquerdo havia uma bela casa com um jardim na frente. No lado direito tinham
algumas casas, nenhuma com mais de dois andares. A praça era toda de pedras e ao
fundo havia duas árvores, uma à direita outra à esquerda, cercadas por um quadrado de grama e algumas flores. Também
lá no fundo, entre as árvores havia um banco que estava enferrujado e sujo. E depois
das árvores, um rio.
Julia parecia
estar dentro de um sonho em que não conseguia reconhecer aquele lugar. Quando subiu o
degrau que separava a praça da rua, quase que involuntariamente, tropeçou por
causa do movimento ligeiro de um inseto que voou rodeando-a muito rapidamente. Tentou
prendê-lo, sem sucesso. Desistiu do inseto e tentou seguir na sua exploração àquele
ambiente novo. Caminhando um pouco para dentro da praça novamente sentiu o
rodopiar de um inseto – de um outro ou do mesmo, vai saber –, e desta vez foi
bem sucedida: capturou-o com a mão direita num movimento tão rápido e forte
quanto o bicho. Mas o inseto não deu tempo de Julia pensar no que faria com
ele, aplicou-lhe um ferrão que ela não teve outra saída senão abrir a mão e
deixá-lo ir. Quando Julia olhou para a palma da sua mão direita viu uma enorme bolha
que latejava. Não era dor o que ela sentia, era incômodo em ver que algo em
sua mão poderia explodir sem nem mesmo entender como.
Despertou. E
pôs-se a explorar mais o lugar. Deu uma volta inteira pela praça observando com cuidado
todos os lados, todos os detalhes, todas as janelas verdes das casas. Por fim
decidiu sentar-se junto à fonte.
Era fim de
tarde, e as casas faziam sombra ao meio da praça, um bom lugar para ter visão
ampla de tudo. Julia se sentou, encostou-se à fonte de frente para o rio e
contemplou o lugar. Apesar do espanto e da estranheza causadas no começo Julia agora
se sentia de volta à vizinhança. Não sentia mais que aquela pracinha era
distante ou que fosse alguma novidade. Ela nem se deu conta do quanto ficou ali
sentada. O sol também parecia estar no mesmo lugar o tempo inteiro, as horas
pareciam não passar e Julia não queria mesmo que passassem.
Por fim,
refeita da angústia que a levou até ali, Julia levantou-se em tom de despedida,
prometendo para si mesma que voltaria. Um lugar tão simples e tão cativante ela
não poderia deixar que fosse esquecido com qualquer ligeireza. Voltaria, sim,
guardaria na mente o mapa do caminho de volta dali até sua casa. Não deve ser
longe, pensou. E quando se levantou olhou mais uma vez a praça inteira querendo,
novamente, guardar cada detalhe do lugar. Deu a volta em toda a praça com o
olhar, voltou ao ponto inicial e respirou fundo – quase em lamentação. Percebeu
que uma menina corria atrás de sua mãe, chamando por ela. Foi muito rápida a cena, porém Julia se deu conta neste instante de que o tempo tinha passado, e que não
fazia ideia de que horas poderiam ser, que o céu e o sol lhe enganaram, e os
seus ouvidos também – ela não escutou ninguém passar por ali até decidir se
despedir da praça.
Julia desceu
o degrau que separava a rua da praça e tomou o lado da rua por onde veio, assim
seria mais fácil lembrar o caminho de volta.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Queijos e Vinhos
Choveu a noite inteira. Os planos para o
domingo diluíram-se com a tempestade e os cinco amigos ficaram sem saber se o
encontro combinado há semanas aconteceria realmente. Não se viam com
freqüência. Mas quando acertavam essas ocasiões os momentos juntos eram marcantes.
Era apenas uma desculpa para brindarem a presença uns dos outros.
O encontro, como seria? O piquenique no
domingo foi decidido em correspondências eletrônicas nas últimas semanas, a
única comunicação possível nestes dias de trabalhos e família que exigem
urgência. E agora teriam de mudar a decisão.
Está fora de questão para hoje, não é agradável
banquetear-se com a grama e a terra molhadas. Ah, pena, um dia perdido. Mas
quando se encontrariam novamente? Quando filhos, maridos e teses permitissem. Mas
a depender das teses, não seria logo. Seria melhor deixar o encontro
para a próxima semana e esperar que o sol os agraciasse com sua presença ou se
encontrarem mais tarde, num lugar igualmente acolhedor e celebrarem ainda
assim?
Decidiram em breves mensagens coletivas
pelo celular que se encontrariam no quartel general, o lugar de sempre: o
apartamento do único casal sem filhos do grupo. Um apartamento antigo numa
parte tranqüila da cidade que fica numa ruazinha estreita no centro, tem uma
sala ampla, um gato recém chegado a se esconder dos visitantes, e algumas
garrafas de vinho levadas pelos convidados. Era um banquete e a verdade era
também uma das convidadas.
O local foi decidido na última hora, e o
horário também. Combinaram às cinco. Chegaram-se todos. Não pontualmente, mas
isso é bastante comum nos encontros entre os amigos. Mesmo com alguns atrasos a
noite correu bem, como era de se esperar. E por algum tempo as demandas de
trabalho concentraram a temática da conversa, mas logo foram adiadas para a
segunda-feira essas inconveniências.
O que seria um piquenique no final da
manhã se transformou numa noite de banquete divino. E este era um bom momento
para esquecer que o domingo já estava terminando e teriam de enfrentar a
segunda-feira, agora com mais ânimo, ou quem sabe com uma ressaca – para
lembrar-lhes de que, pelo menos, o dia anterior não foi em vão.
As comidinhas e os vinhos regavam esse
encontro. O domingo não foi como o planejado, seguiu outro curso. Conversas e
risadas desaceleravam a noite que passava e ninguém se dava conta. Ninguém se
preocupava naquele momento. Nenhum deles
olhava para o relógio procurando uma desculpa para ir, não pensavam nas horas,
na rotina, nas obrigações.
A chuva cessou, mas ainda não dava
espaço para o luar. Os amigos chegaram-se aos poucos até a varanda. As folhas
das plantas ainda pingavam, tinha cheiro de coisa nova e terra molhada. Sentaram-se na varanda. Ficaram ali a observar
a rua e o asfalto ainda molhado, foram envolvidos por uma leve corrente de
frio. O abraço suave do orvalho, as bochechas quentes, os lábios rosados, tudo
isso os envolvia.
Não precisavam dizer tudo, dizer o
quanto que se amavam, estavam ali somente, eram os melhores amigos brindando à
vida e ao amor. Falavam sobre o tempo. As vozes baixas acompanhavam o ritmo da
noite e das nuvens que dançavam sobre eles; o friozinho da noite os abraçava naquele
instante revelando que as horas não foram sentidas naquele domingo. Não tinham
pressa. Contemplavam o relento da noite procurando a beleza e a razão de todas
as coisas. Estavam repletos.
Porém, a segunda-feira começa a dar
sinais de chegada e mesmo a noite irresistível não consegue pará-la. Ei-la: é
hora de irem todos, hora de voltarem para os maridos e filhos e, quem sabe, para
as teses. As taças, os guardanapos, as garrafas, os talheres voltarão para seus
lugares quando a luz do dia chegar, não agora.
*
João não dormiu ao chegar a casa, não se
importava com o que deveria fazer quando o dia chegasse. As tarefas, o trabalho
que sempre lhe chamava logo cedo, nada conduziu João para a cama. Ele queria
ver o sol nascer. Poucas vezes fazia isso. Riu sozinho quando se deu conta da
loucura que planejava. Largaria tudo, pelo menos hoje.
Foi arrebatado. João se lembrava da
noite que passara com os amigos, de toda a vida que eles despertaram. Abraçou-se
a um lençol, encostou a cabeça na janela e observava os carros e ônibus que abriam
a avenida para mais um dia de outros. Quando viu que o sol se aproximava
sentou-se no sofá para escrever.
João piscava os olhos, a noite o vencia.
*
O dia já desperta e com ele as
obrigações, o café forte, o remédio para curar a dor de cabeça. E cada um, do seu
lugar, no seu tempo, sai de casa outra vez. Desta vez para outro ritual, o
burocrático e sem graça, anestésico. A segunda-feira passa, e os cinco enófilos
se distanciam cada vez mais da noite anterior, consumidos pelas tarefas do dia,
quando são lembrados por João, através de uma longa mensagem por email, do
quanto a reunião na noite anterior foi bela e importante.
A embriaguez do domingo retorna.
João, o mais jovem a se juntar ao grupo,
a peça que faltava. E que a partir de agora não voltaria mais. Foi a última
mensagem de João. Mensagem pronta, proposital e que espantou a todos com
palavras tão bonitas sobre o significado daquele encontro para ele. João se
entregou. Mas não tinha importância só para ele, tinha para todos, e com aquela
mensagem cada um, do seu lugar, percebeu isso.
O telefone toca, não é João, ele não é
mais, ele quis e decidiu assim.
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