segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Terra estrangeira


Julia caminhava aquele dia sem pensar no destino. Saiu de casa disposta a andar pela vizinhança sem se importar muito com o tempo que demoraria nem com o que encontraria, ou onde pararia. Ela apenas caminhava, e assim chegou a uma ampla praça. A praça tinha cheiro de terra molhada e Julia se deu conta de que não conhecia aquele lugar. Engraçado, porque todo o resto do caminho era tão familiar que ela sequer pensou estar perdida.
Parou um instante para observar com cuidado todo o lugar. Era uma bela praça, e muito tranquila, não passava muita gente por ali. Ficou surpresa novamente por não se lembrar daquela praça em nenhum momento anterior, e ela morava ali no bairro há bastante tempo.
A praça era meio escondida, no meio de uma rua fechada. Havia um prédio alto de três andares que preenchia toda a rua, no centro tinha uma fonte redonda, com uma estátua não muito alta rodeada por um pedaço de mármore – a fonte estava seca, não era usada há algum tempo –, dos lados esquerdo e direito prédios não muito grandes cercavam a praça. No lado esquerdo havia uma bela casa com um jardim na frente. No lado direito tinham algumas casas, nenhuma com mais de dois andares. A praça era toda de pedras e ao fundo havia duas árvores, uma à direita outra à esquerda, cercadas por um quadrado de grama e algumas flores. Também lá no fundo, entre as árvores havia um banco que estava enferrujado e sujo. E depois das árvores, um rio. 
Julia parecia estar dentro de um sonho em que não conseguia reconhecer aquele lugar. Quando subiu o degrau que separava a praça da rua, quase que involuntariamente, tropeçou por causa do movimento ligeiro de um inseto que voou rodeando-a muito rapidamente. Tentou prendê-lo, sem sucesso. Desistiu do inseto e tentou seguir na sua exploração àquele ambiente novo. Caminhando um pouco para dentro da praça novamente sentiu o rodopiar de um inseto – de um outro ou do mesmo, vai saber –, e desta vez foi bem sucedida: capturou-o com a mão direita num movimento tão rápido e forte quanto o bicho. Mas o inseto não deu tempo de Julia pensar no que faria com ele, aplicou-lhe um ferrão que ela não teve outra saída senão abrir a mão e deixá-lo ir. Quando Julia olhou para a palma da sua mão direita viu uma enorme bolha que latejava. Não era dor o que ela sentia, era  incômodo em ver que algo em sua mão poderia explodir sem nem mesmo entender como.
Despertou. E pôs-se a explorar mais o lugar. Deu uma volta inteira pela praça observando com cuidado todos os lados, todos os detalhes, todas as janelas verdes das casas. Por fim decidiu sentar-se junto à fonte.
Era fim de tarde, e as casas faziam sombra ao meio da praça, um bom lugar para ter visão ampla de tudo. Julia se sentou, encostou-se à fonte de frente para o rio e contemplou o lugar. Apesar do espanto e da estranheza causadas no começo Julia agora se sentia de volta à vizinhança. Não sentia mais que aquela pracinha era distante ou que fosse alguma novidade. Ela nem se deu conta do quanto ficou ali sentada. O sol também parecia estar no mesmo lugar o tempo inteiro, as horas pareciam não passar e Julia não queria mesmo que passassem.
Por fim, refeita da angústia que a levou até ali, Julia levantou-se em tom de despedida, prometendo para si mesma que voltaria. Um lugar tão simples e tão cativante ela não poderia deixar que fosse esquecido com qualquer ligeireza. Voltaria, sim, guardaria na mente o mapa do caminho de volta dali até sua casa. Não deve ser longe, pensou. E quando se levantou olhou mais uma vez a praça inteira querendo, novamente, guardar cada detalhe do lugar. Deu a volta em toda a praça com o olhar, voltou ao ponto inicial e respirou fundo – quase em lamentação. Percebeu que uma menina corria atrás de sua mãe, chamando por ela. Foi muito rápida a cena, porém Julia se deu conta neste instante de que o tempo tinha passado, e que não fazia ideia de que horas poderiam ser, que o céu e o sol lhe enganaram, e os seus ouvidos também – ela não escutou ninguém passar por ali até decidir se despedir da praça.
Julia desceu o degrau que separava a rua da praça e tomou o lado da rua por onde veio, assim seria mais fácil lembrar o caminho de volta. 

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