quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Retratos


De repente a gente olha para o passado e se dá conta de que já não há memória alguma. As coisas, os objetos, as lembranças, as festinhas, os acontecimentos, os jeitos, os gestos. Tudo isso fica para trás, sem registro. As lembranças se confundem com algo imaginário, com fantasia, com algo que, no momento da lembrança, parece não ter sido.

Foto: Elaine Pinto
 - Às vezes me esforço por lembrar as coisas, queria mesmo era ter uma gaveta dentro da cabeça, porque quando fosse procurar, saberia onde encontrar.
- Por isso gosto das fotografias, elas me fazem lembrar, me levam de volta àquele instante...
- Não  fazem lembrar nada. Nos esforçamos, é verdade, mas esse esforço pode nos levar a uma ilusão, e não ao que aconteceu de fato.
- E o que aconteceu de fato?
- Não sei, já não lembro. Olho as fotografias mas não estou lá. Olho os objetos, os bilhetes, os livros, o vinho..., mas nunca tive nada disso. Eu sei que hoje esses objetos habitam toda a casa, estão espalhados pelos armários e gavetas como memórias de algum dia...
- O dia que você esqueceu?!
- Não, o dia que eu já não tenho certeza se existiu.

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