O
relógio mostrava que já eram onze e meia da noite. Fechei o caderno de
anotações, deixando o restante do trabalho para o dia seguinte. Acordaria cedo
e retomaria as atividades de sempre. Um último gole d’água, e fui deitar. O
corpo demonstrava sinais de que o dia tinha sido longo, e ele precisava de
descanso.
O dia
seguinte seria de trabalho intenso e distante. Eu teria de ir a outra cidade.
Deitei. Apaguei as luzes. Durante muito tempo busquei o sono. Tique-taque.
Tique-taque. Tique-taque.
São
onze e trinta e oito da noite. Meu corpo resmunga. Parece irritado comigo,
porque eu não o obedeço. Tento novamente. Viro para um lado, viro para outro.
Mãos e pernas buscando uma posição mais confortável. O corpo inteiro e as
partes não se entendiam. Sento-me na cama. Ando pelo quarto. E já pareço sem
forças para continuar. Ai, agora sim vou conseguir dormir. Meia-noite.
Tique-taque.
Tique-taque. Tique-taque.
Qualquer
coisa me assusta, é o vento que abre a janela trazendo água para dentro do
banheiro. Levanto-me para fechá-la. A cama não é atraente. São três
e vinte e cinco.
A rua
está deserta. Apenas dois motoqueiros duvidosos estão lá embaixo à
espreita de uma vítima. Ninguém passa, apenas os carros de polícia, viaturas e
camburões. Invadem o estacionamento do mercado como que negociando com algum
sequestrador ou terrorista. Quando o camburão sai, é alvejado e parte-se em
dois. Assisto a tudo da janela.
O
despertador toca, são sete e quarenta da manhã. Esqueço-me sobre a cama por
“mais cinco minutos”. Os sinos da Igreja anunciam a hora da missa. Já atrasada,
desperto. O telefone chama e do outro lado alguém me diz que está tudo
cancelado, chove demais.
O dia
segue outro curso, mas que é igual ao de sempre com o caderno de anotações e as
cartas que chegam. As horas passam e tudo se mantém igual.
Tique-taque.
Tique-taque. Tique-taque.
São
onze e meia da noite. Bebo uma xícara de chá para apressar o sono. Meus olhos
cedem. Apago as luzes.
Meu
corpo outra vez briga com o leito. Viro, rodopio, sento, levanto. Jogo os
braços e pernas para os lados. Digo “basta”, mas não basta para ele. Meu corpo
me tortura até querer me dar por vencida.
Tique-taque.
Tique-taque. Tique-taque.
Agora
já nem sei se é mesmo o corpo brigando com as pernas e mãos, ou com a minha
mente, ou se é a mente quem briga com o corpo. Sei que algo não funciona. São
onze e quarenta e nove. Tento desistir, dar a luta por encerrada. Vitória do
corpo, mas ele não obedece. Parece não querer a vitória, ou a vitória dele é me
esmagar a cada vez?
Tique-taque.
Tique-taque. Tique-taque.
São
três horas e vinte e oito. Abraço-me ao travesseiro em busca de alguma
proteção, algum conforto.
Os
dois motoqueiros entram no prédio sem serem vistos ou anunciados. Tocam a
campainha. Ao tentar ligar para o porteiro já é tarde, os dois motoqueiros
entraram no apartamento. Eles querem arrastar, tirar, consumir tudo o que há lá
dentro. A jovem está sozinha. Eu não estou ali, mas assisto a tudo.
São quatro e doze. Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque. Estou só, e estou rendida.
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