sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Noites na contramão


O relógio mostrava que já eram onze e meia da noite. Fechei o caderno de anotações, deixando o restante do trabalho para o dia seguinte. Acordaria cedo e retomaria as atividades de sempre. Um último gole d’água, e fui deitar. O corpo demonstrava sinais de que o dia tinha sido longo, e ele precisava de descanso.
O dia seguinte seria de trabalho intenso e distante. Eu teria de ir a outra cidade. Deitei. Apaguei as luzes. Durante muito tempo busquei o sono. Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque.
São onze e trinta e oito da noite. Meu corpo resmunga. Parece irritado comigo, porque eu não o obedeço. Tento novamente. Viro para um lado, viro para outro. Mãos e pernas buscando uma posição mais confortável. O corpo inteiro e as partes não se entendiam. Sento-me na cama. Ando pelo quarto. E já pareço sem forças para continuar. Ai, agora sim vou conseguir dormir. Meia-noite.
Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque.
Qualquer coisa me assusta, é o vento que abre a janela trazendo água para dentro do banheiro.  Levanto-me para fechá-la. A cama não é atraente. São três e vinte e cinco.

A rua está deserta.  Apenas dois motoqueiros duvidosos estão lá embaixo à espreita de uma vítima. Ninguém passa, apenas os carros de polícia, viaturas e camburões. Invadem o estacionamento do mercado como que negociando com algum sequestrador ou terrorista. Quando o camburão sai, é alvejado e parte-se em dois. Assisto a tudo da janela.

O despertador toca, são sete e quarenta da manhã. Esqueço-me sobre a cama por “mais cinco minutos”. Os sinos da Igreja anunciam a hora da missa. Já atrasada, desperto. O telefone chama e do outro lado alguém me diz que está tudo cancelado, chove demais.
O dia segue outro curso, mas que é igual ao de sempre com o caderno de anotações e as cartas que chegam. As horas passam e tudo se mantém igual. 
Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque.
São onze e meia da noite. Bebo uma xícara de chá para apressar o sono. Meus olhos cedem. Apago as luzes.
Meu corpo outra vez briga com o leito. Viro, rodopio, sento, levanto. Jogo os braços e pernas para os lados. Digo “basta”, mas não basta para ele. Meu corpo me tortura até querer me dar por vencida.
Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque.
Agora já nem sei se é mesmo o corpo brigando com as pernas e mãos, ou com a minha mente, ou se é a mente quem briga com o corpo. Sei que algo não funciona. São onze e quarenta e nove. Tento desistir, dar a luta por encerrada. Vitória do corpo, mas ele não obedece. Parece não querer a vitória, ou a vitória dele é me esmagar a cada vez?  
Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque.
São três horas e vinte e oito. Abraço-me ao travesseiro em busca de alguma proteção, algum conforto.

Os dois motoqueiros entram no prédio sem serem vistos ou anunciados. Tocam a campainha. Ao tentar ligar para o porteiro já é tarde, os dois motoqueiros entraram no apartamento. Eles querem arrastar, tirar, consumir tudo o que há lá dentro. A jovem está sozinha. Eu não estou ali, mas assisto a tudo.

São quatro e doze. Tique-taque. Tique-taque. Tique-taque. Estou só, e estou rendida.

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