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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Mathilda, de Mary Shelley

Ando sumida (como sempre), né?! Apareço vez ou outra rapidinho, faço uma brincadeira e depois sumo de novo. Desde que comecei com o blog me propus a escrever, a exercitar minha escrita etc. e tal, mas cadê a disciplina? Sempre coloco outras coisas que nem são prioritárias à frente dos meus contos, das resenhas sobre as leituras etc. etc. etc.

Mas como este não é um post de lamentação e sim de opinião sobre um livro que li (e já terminei faz um tempinho), vamos mudar de assunto. Vamos falar de Mary Shelley, cuja obra mais famosa é Frankenstein. Mas não é deste que vou falar, não. Hoje é sobre Mathilda, uma novela escrita por Mary Shelley em 1820, e que só foi publicada pela primeira vez em 1959.

Na orelha do livro tem um resumo: "A mãe de Mathilda, Diana, morre no parto. Seu pai, em desespero, deixa a recém-nascida aos cuidados de uma tia e sai para correr o mundo. Quando Mathilda tem 16 anos, ele volta, mas fica pouco tempo em sua vida. O terrível tormento de reviver a paixão por Diana na filha o consome.". Trágico. 

E eu achei bem isso mesmo. A vida de Mathilda é um dramalhão do começo ao fim. E eu adorei! Primeiro, porque a novela é escrita toda em primeira pessoa. Mathilda nos conta sobre a tragédia que separou sua família, sua infância com uma tia muito rígida e fria no trato com uma criança, o (re)encontro com o pai e as mudanças que se seguem daí. Paro por aqui porque o acontece depois é importante para compreender todo o percurso descrito por ela desde o começo da narrativa.

Foto: Elaine Pinto

Confesso que vez ou outra achei esta personagem um pouco infantil, com uma exigência por atenção e afeto exagerada, mas acabou me parecendo compreensível. Afinal, ela é muito jovem, e afeto foi o que sempre lhe faltou na vida. Não sei como em nenhum momento ela recusa a aproximação do pai. não se revolta, pois ele parece egoísta ao deixá-la com uma tia e ir tentar curar o luto sozinho e longe dela. Ela se sente abandonada, e por isso a demanda por carinho. Isso é tão cruel, porque ela espera a cada dia pela volta do pai, para resgatá-la daquela casa fria em que foi criada e finalmente viver em família. E toda essa tragédia que é a vida dela não abre espaço para que ela pense em outras coisas, como casamento. Há um momento em que um rapaz deseja cortejá-la e ela nem se dá conta, não se importa. O que a move é o afeto do e pelo pai, mas como diz o resumo do livro ele revive em Mathilda a paixão que sentiu pela mãe dela, e, bem, isso complica a relação entre os dois.

***

Informações da publicação
Título: Mathilda
Autora: Mary Shelley
Tradução: Bruno Gambarotto 
1 ed. São Paulo: Grua Livros, 2015 (a arte da novela)


***
Seguem alguns trechos:

Começarei minha narrativa - é minha derradeira tarefa, e espero ter força o bastante para cumpri-la. Não registro um crime; meus erros poderiam ser facilmente perdoados; pois eles não são decorrentes de qualquer vileza, mas da falta de juízo; e creio que poucos dir-se-iam capazes, por conduta diversa e sabedoria superior, de ter evitado as desgraças de que sou vítima. (p. 13)

Assim, meu pai, nascido abastado e sempre próspero, ascendeu ao pináculo da felicidade sem as dificuldades e as inúmeras frustrações que todos os seres estão destinados a encontrar. Em torno dele tudo era luz solar, e as nuvens cujas formas de beleza tornavam a paisagem divina afastavam dele a realidade nua e crua que se escondia sob elas. (p. 21)

Sim, o que eu sentia era desespero; pois pela primeira vez apossava-se de mim aquele fantasma; primeira e última, pois desde então ele jamais me deixou... (p. 64)

A solidão também perdia para mim alguns de seus encantos - começava novamente a desejar o contato com os demais; não que eu estivesse todo tempo tentada a buscar multidão, mas desejava ao menos um amigo que me amasse. (p.105)


***
Mary Woolstonecraft Shelley (Londres, 1797- Londres, 1851), mais conhecida por Mary Shelley, foi uma escritora britânica, filha do filósofo William Godwin e da pedagoga e escritora Mary Wollstonecraft. Casou-se com o poeta Percy Bysshe Shelley em 1816. Autora de muitos livros, entre eles Frankenstein.



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Eu sou Malala - Leitura

Nessas minhas novas aventuras literárias considerando a vida e/ou obra de mulheres pelo mundo, eu ansiava por ler a autobiografia de Malala Yousafzai. Um dia fui à livraria com a intenção de adquirir uma biografia de uma mulher que tenha feito [e faça] a diferença no mundo. E saí de lá com a história de Malala.
Foto: Elaine Pinto


Malala é uma jovem paquistanesa que ficou conhecida no mundo inteiro depois de ter sido baleada pelo Talibã, que tentou matá-la por ela defender, ainda muito jovem, o acesso à educação para meninas.

O texto é muito interessante porque não se atém apenas ao atentado sofrido por ela e que a tornou conhecida mundialmente, mas o percurso dela desde muito jovem ainda e também o de sua família, principalmente o de seu pai, que, segundo as palavras de Malala sempre lutou para que crianças – inclusive as meninas –  pudessem estudar. Algumas tradições muçulmanas, os conflitos políticos no Paquistão e as relações com outros países etc.

Para mim é ainda difícil imaginar que meninas não possam estudar apenas por serem meninas. Mas ao ler a autobiografia de Malala pude ver que para certas coisas o mundo em que vivo não é tão diferente do dela. Mesmo que aqui (no Brasil) não existam grupos contrários à educação de meninas e mulheres existem grupos que são contrários a outros direitos de meninas e mulheres (por exemplo, este aqui).

Foi uma leitura muito interessante, aprendi muito. Mesmo considerando que é uma visão particular sobre alguns fatos para mim foi importante conhecer alguma visão, já que eu não sabia nada sobre o lugar (além das notícias políticas quando são de interesse mundial, como a captura de OsamaBin Laden). 

Separei alguns trechos que mostram a visão de Malala sobre sua vida:

Minha mãe é muito religiosa e reza cinco vezes por dia, embora não na mesquita, pois só os homens podem frequentá-la. Ela desaprova a dança porque diz que Deus não gostaria disso, mas adora se enfeitar com coisas bonitas, roupas bordadas, colares e pulseiras dourados. Acho que sou um pouco decepcionante para ela, pois pucei a meu pai e não ligo para roupas e joias. Fico entediada no mercado, mas adoro dançar aportas fechadas com minhas amigas de escola. (p. 31)

Nasci num tipo de democracia no qual, por dez anos, Benazir Bhutto e Nawaz Sharif substituíram um ao outro no poder, sem que seus governos completassem o tempo de mandato e sempre se acusando mutuamente de corrupção. Dois anos depois de meu nascimento, porém, os generais mais uma vez assumiram o controle da nação. Isso aconteceu de maneira tão dramática que mais pareceu coisa saída de cinema. Nawaz Sharifera primeiro-ministro. Desentendeu-se com o chefe das Forças Armadas, general Pervez Musharraf, e o exonerou quando o general se encontrava em um avião das linhas aéreas paquistanesas, voltando de uma viagem ao Sri Lanka. [...] O general Iftikhar, comandante local, dominou a torre de controle de Karachi para que o avião pudesse pousar. Musharraf tomou o poder e atirou Sharif numa cela em Forte Attock. [...] Sharif, acusado de traição, foi salvo por seus amigos da família real saudita, que negociaram seu exílio. (p. 84-85)

Meu pai costumava dizer que o povo do Swat e os professores haveriam de continuar a educar seus filhos enquanto a última sala, o último professor e o último aluno estivessem vivos. Meus pais nunca me aconselharam a abandonar a escola. Nunca. Embora amássemos estudar, só nos demos conta de quanto a educação é importante quando o Talibã tentou nos roubar esse direito. Frequentar a escola, ler, fazer nossos deveres de casa não era apenas um modo de passar o tempo. Era nosso futuro. (p. 156)

O diário de Gul Makai chamou muita atenção. Alguns jornais o reproduziram. Então a BBC o colocou no ar usando a voz de outra menina. Comecei a entender que a caneta e as palavras podem ser muito mais poderosas do que metralhadoras, tanques ou helicópteros. Estávamos aprendendo a lutar. E a perceber como somos poderosos quando nos manifestamos. (p.167)


Quando me falam do que aconteceu, da maneira como fui baleada, penso que se trata da história de Malala, “a menina baleada pelo Talibã”. Não sinto que se trate de uma história sobre mim. (p.315)

E para encerrar essa postagem, deixo esse vídeo em que Malala discursa na ONU e tem seu dua fala repetida por outras meninas ao redor do mundo que também lutam para ter acesso a uma educação gratuita, de qualidade, libertadora.



domingo, 7 de setembro de 2014

Menina*


Para a menina, ele era alguém a ser temido e evitado. Todas as manhãs antes de ir ao trabalho ele vinha até o quarto dela e lhe beijava secamente, ao que ela respondia com “Até logo, pai”. E, ah, o alívio quando ela ouvia cada vez mais distante o som do carro pela estrada!

À noite, ele se apoiava sobre o corrimão ao chegar a casa, ela ouvia sua voz grave na sala. “Traga-me o chá na sala de estar... O jornal ainda não chegou? Alguém o levou de novo para a cozinha? Mulher, veja se meu jornal está lá fora – e traga meus chinelos.”

“Kezia,” a mãe a chamava, “se você for uma boa menina você vai descer e tirar as botas do papai.” 

Lentamente a menina escorregava pela escada, segurando firme o corrimão com uma das mãos – ia mais lentamente ainda, pela sala, e empurrava a porta do escritório.

A essa altura ele já estava com os óculos e através deles olhava de um jeito assustador para ela.

“Bem, Kezia, mexa-se e tire essas botas e as leve para fora. Você se comportou bem hoje?”

“Eu n-n-não sei, pai.”

“Você n-não sabe? Se você gagueja assim sua mãe vai ter de te levar ao médico.”
Ela nunca gaguejava com outras pessoas – ao contrário, era até elogiada – mas somente com o pai, porque ela tentava dizer as palavras corretamente com muita força.

“Qual é o problema? Por que esse olhar tão melancólico? Mulher, espero que você ensine a essa criança a não ter ideias suicidas... Aqui, Kezia, ponha minha xícara de volta na mesa – com cuidado; suas mãos  tremem como as mãos de uma velha. E tente manter o lenço dentro do bolso, não sobre os ombros.”

“S-s-sim, pai.”

Aos domingos ela se sentava no banco junto a ele na igreja, ouvindo quando ele cantava numa voz alta e clara, observando quando ele fazia pequenas anotações com um lápis azul de madeira no verso de um envelope durante o sermão – seus olhos apertados como uma fenda – com uma das mãos batia alguma coisa silenciosa sobre o peitoril do banco. Ele disse suas orações tão alto que ela teve a certeza de que Deus escutaria mais a ele do que ao pastor.

Ele era tão grande – suas mãos e seu pescoço, e principalmente a boca quando ele bocejava. Pensar nele dentro do quarto dela era como pensar num gigante.

Nas tardes de domingo a avó a mandava para a sala de visitas no seu vestido marrom de veludo para ter uma “agradável conversa com o pai e a mãe”. Mas a menina sempre encontrava a mãe lendo “The Sketch” e o pai deitado no sofá, o lenço dele no rosto, os pés sobre a melhor almofada, dormindo tão profundamente que chegava a roncar.

Ela, sentada no banco do piano, o observava com olhar grave até que ele acordasse e se esticasse, e perguntasse as horas – e então olhasse para ela.

“Não me encare assim, Kezia. Você parece uma coruja marrom.”

Um dia, quando ela ficou em casa resfriada, a avó lhe disse que o aniversário do pai seria na próxima semana, e sugeriu que ela fizesse para ele uma alfineteira de presente com um belo retalho de seda.

Com muito esforço, e dois pedaços de algodão, a menina costurou os três lados. Mas iria preencher com o que? Esse era o problema. A avó estava no jardim, e ela foi procurar no quarto da mãe alguns retalhos. Em cima da cama a menina descobriu alguns pedaços de um papel fino, juntou-os, rasgou em pedaços menores, e os enfiou na caixinha, e então costurou o lado que faltava.

Naquela noite houve uma agitação na casa. O grande discurso do pai para a Autoridade Portuária tinha se perdido. Os cômodos foram revirados – perguntaram aos empregados. Por fim, a mãe foi até o quarto da menina.

“Kesia, você não viu um papéis em cima da mesa do nosso quarto, viu?”

“Ah, sim”, ela disse. “Eu os rasguei para preparar minha surpresa.”

“O que?!” gritou a mãe. “Desça imediatamente para a sala de jantar, agora”

E ela foi arrastada para onde o pai estava andando de um lado a outro, com as mãos para trás.

“Então?” ele disse rispidamente.
A mãe explicou.

Ele parou e estupefato encarou a menina.

“Você fez o que?”

“N-n-não,” ela murmurou.

“Mulher, vá até o quarto dela e me traga esta porcaria – e ponha essa criança na cama agora.”

Chorando muito, sem conseguir explicar, ela deitou-se no quarto sombrio assistindo a luz da noite passar através das cortinas e deixar um pequeno e triste desenho no chão.

Então o pai entrou no quarto com uma régua nas mãos.

“Vou bater em você com isso,” ele disse.

“Oh, não, não!” ela gritou, escondendo-se debaixo das cobertas.
Ele as jogou para longe.

“Sente-se,” ele ordenou, “e estenda as mãos. Você deve aprender de uma vez por todas a não mexer no que não te pertence.”.

“Mas era para o seu a-a-aniversário.”

A régua caiu sobre suas pequenas e róseas palmas.

Horas depois, quando a avó a enrolou no xale e a ninou na cadeira de balanço, a menina a abraçou forte no seu corpo frágil.

“Para que Jesus criou os pais?” ela se queixou.

“Aqui, um lenço limpo, querida, com um pouco da minha água de lavanda nele. Vá dormir, pequenina; amanhã você terá esquecido tudo isso. Eu tentei explicar ao seu pai, mas ele estava muito irritado para ouvir qualquer coisa esta noite.”

Mas a menina nunca esqueceu. Na vez seguinte em que o viu, ela escondeu as mãos para trás, e suas bochechas ficaram vermelhas.

Os Macdonalds moravam logo ao lado. Tinham cinco crianças. Olhando através de um buraco na cerca da horta do quintal a menina os viu à tarde brincando de pique. O pai com o bebê Mac nos ombros e duas meninas penduradas na barra do casaco corria dando voltas no canteiro, balançando-as e rindo. Uma vez ela viu os meninos correndo atrás dele com a mangueira – correndo atrás dele com a mangueira – e ele os agarrou, e fez cócegas até eles soluçarem. Então ela entendeu que existem tipos diferentes de pais.

Um dia, de repente, a mãe ficou doente, e ela e a avó foram até a cidade de carro.

A menina ficou sozinha em casa com Alice, a “general”. Estava tudo bem durante o dia, mas quando Alice a colocou para dormir ela ficou, subitamente, com medo.

“O que vou fazer se eu tiver um pesadelo?” ela perguntou. “Eu sempre tenho pesadelos, e então vovó me põe na cama junto com ela – eu não posso ficar no escuro – tudo fica assustador... O que vou fazer?”

“Você vai dormir, criança,” disse Alice, tirando as meias dela e jogando-as na grade da cama, “e eu não vou chamar seu pai e acordá-lo.”

Mas o mesmo pesadelo de sempre surgiu – o açougueiro com uma faca e uma corda que se aproximava, e se aproximava, sorrindo de um jeito horrível, e ela não conseguia se mexer, podia apenas levantar, chorando, “Vovó, vovó!”. Ela acordou trêmula, viu o pai ao lado da cama, com uma vela na mão.

“Qual o problema?” ele disse.

“Oh, o açougueiro – uma faca – eu quero a vovó.” Ele soprou a vela, curvou-se e pegou a menina nos braços, carregando-a através de uma passagem para o quarto maior. Um jornal estava sobre a cama – a metade de um cigarro balançava ao lado da luminária. Ele jogou o papel no chão, apagou o cigarro, então deitou a menina. Ele se deitou ao lado dela. Já quase dormindo, ainda com o sorriso do açougueiro na sua direção, ela pareceu deslizar para perto do pai, aninhou a cabeça debaixo do seu braço, segurou-se firme ao pijama dele.

Então não importava mais a escuridão; ela deitou. “Assim, esfregue seus pés nas minhas pernas para se aquecer,” disse o pai.

Cansado, ele dormiu antes da menina. Um sentimento engraçado lhe apareceu. Pobre pai! Não é tão grande, afinal – e não tem ninguém para cuidar dele... Ele era mais firme que a avó, mas era de uma firmeza boa.
...E ele tinha de trabalhar todos os dias e estava cansado demais para ser o Sr. Macdonald... Ela rasgou todas as suas belas palavras... E se comoveu de repente, e suspirou.

“Qual o problema?” perguntou o pai. “Outro sonho?”


“Oh,” disse a menina, “minha cabeça está no seu coração; eu posso ouvi-lo. Que coração grande você tem, querido pai”.


*Tradução minha do conto "The Little Girl" (1912), de Katherine Mansfield. 
in: "Something Childish, and other stories".

terça-feira, 25 de março de 2014

Leitura - Clarice, uma biografia


Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu.
Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim




A história da escritora Clarice Lispector, cuja obra ainda não estou muito familiarizada, me prendeu logo no começo com os detalhes de sua origem. Ela nasceu na Ucrânia, região que nestes últimos tempos tem recebido olhares atentos de todo o mundo por ser alvo de disputas políticas e econômicas, uma região de tensão entre diferentes grupos desde muito tempo. Além disso, por ser judia essas condições são ainda mais intrigantes para mim que conheço pouco ou nada do povo judeu.

A  vida e a obra de Clarice possuem ligações com seu tempo, com o que acontece no mundo ao redor. Ela passou por uma guerra,  viu o surgimento de uma ditadura no Brasil e a sua origem desde os primeiros capítulos me cativaram, como a descrição da região onde a família viveu antes da fuga, as condições que levaram a seu nascimento etc. e tal. o biógrafo Benjamin Moser mostra o processo que levou a família Lispector a emigrar da Ucrânia: pobreza, guerra, perseguição, e conecta esses elementos à obra de Clarice, aos seus personagens e ela própria. Uma esfinge como diziam alguns de seus amigos, uma mulher que “já foi descrita como quase tudo: nativa e estrangeira, judia e cristã, bruxa e santa, homem e lésbica, criança e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa”[1].

A família Lispector chegou em Maceió (AL) na região Nordeste do Brasil, quando Clarice ainda era muito pequena e foi aqui no Brasil que a família reestruturou sua vida, por isso não é difícil dizer que a escritora não seja brasileira, apesar dos traços e até certo sotaque estrangeiros que ela possuía. A família enfrentou dificuldades financeiras, teve de lidar com a doença de Mania [mãe de Clarice], as mudanças de uma cidade para outra; de Maceió foram para Recife (PE) e então para o Rio de Janeiro (RJ). 

Clarice estudou, formou-se, tinha uma relação de profundo carinho com as irmãs, casou-se com um diplomata, teve dois filhos, publicou romances e contos, escreveu para jornais, e mesmo entre as lindas paisagens da Itália ou Suíça ela sentia que seu lugar era mesmo no Rio de Janeiro.

Foto: Elaine Pinto

Dadas as circunstâncias brutais da primeira infância de Clarice, seria difícil que ela pudesse chegar a uma conclusão diferente de que a vida não é humana e não tem "valor humano" algum. Sua existência não tinha mais razão de ser que a da barata. Pura sorte era a única razão pela qual ela sobrevivera aos horrores ucranianos enquanto milhões de outros pereceram. A única conclusão lógica era que a natureza do mundo é aleatória e sem sentido, mas compreender a natureza animal e aleatória do mundo era necessariamente rejeitar a moral convencional, o que implicava atribuir significados humanos ao mundo inumano.[2] 
***

Estabeleci uma meta: ler dois capítulos por dia da biografia, e assim segui num ritmo viciante de leitura. Terminava os dois capítulos programados para o dia mas a intensidade de Clarice era tanta que eu lia mais, ia além. Foi assim que as seiscentas e cinquenta e duas páginas sobre sua vida não me assustaram e quando vi em pouco tempo havia terminado. Ainda assim, apesar de tamanha energia é tarefa difícil resumir todas estas páginas em algumas linhas daqui do blog.

A cada nova página eu me via fascinada com a vida de Clarice Lispector. Ela era uma pessoa comum no sentido de que tinha preocupações banais, como os estudos, os filhos, a casa, o trabalho. Mas era ao mesmo tempo extraordinária, inquietante. Não só com o que escrevia, mas nas suas relações com os outros e com o mundo.

***

Conforme contou a um entrevistador (provavelmente seu primeiro), "escrevo porque encontro nisso um prazer que não sei traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta minha alma falando e cantando, às vezes chorando..." [3]
*** 

Lendo assim sua história, suas cartas a amigos e trechos de suas obras, a impressão que Clarice causava a todos, principalmente aos leitores, sentia-me próxima dela, íntima. Mas às vezes, à medida que ela envelhecia, que o tempo para ela seguia em frente, parecia que a minha vitalidade [também] definhava. Não sei exatamente se a minha, a do biógrafo ou a da própria Clarice. [Ou será que eu, tomada pela imagem de esfinge, ou de bruxa, estava enfeitiçada e aos poucos o efeito do feitiço passou?] No fim percebi que Clarice lutou muito, lutou arduamente para ser a mulher que foi, para ser a escritora que foi. 


Foto: Catraca Livre

Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor [4]

***

Clarice ainda é uma névoa para mim, sempre que me aproximo ela desaparece no ar como as pequenas nuvens que se espalham quando são tocadas pela asa do avião. E mesmo como névoa ela se tornou uma inspiração por ser tão extraordinária em sua obra [dos trechos que se encontram na biografia e dos contos que li] e também na vida, como contam seus amigos.

Agora que terminei de ler sua biografia sinto-me um pouco órfã e ficarei assim até ser fisgada pela próxima leitura, quem sabe um romance de Clarice Lispector em pessoa?

#BoaLeitura


_______________________________________

Referências:

[1] MOSER, Benjamin. Clarice, uma biografia. Tradução José Geraldo Couto. SP: CosacNaify, 2013. p.18

[2] Idem, p. 108

[3] Idem, p.240

[4] Idem, p.293

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Leitura - A Vagabunda


“Escrever! Gozo e sofrimento dos ociosos! Escrever!”
Gabrielle Colette, A Vagabunda.


Tenho pensado em escrever não apenas contos ou crônicas aqui no blog, vou escrever sobre outras coisas também, como os livros que tenho lido [ou já li], os filmes a que assisti [como já fiz escrevendo sobre o filme Anni felici], ou peças teatrais. Pretendo fazer isso porque a ideia inicial deste blog era exercitar a escrita, e escrever é uma atividade que se desdobra em diferentes modos. Então vamos compartilhar uma [algumas, outras] experiência[s].




Na semana passada comecei a ler o romance A Vagabunda (1910) de Gabrielle Colette. Não a conhecia. Nunca tinha ouvido falar na escritora até me deparar com algumas referências a ela e a esse romance em “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir. Fiquei curiosa, [o livro de Simone de Beauvoir tem sido muito importante para mim – o descobri tarde, eu sei, em breve tentarei escrever sobre ele também.], e como ela faz muitas referências literárias eu achei que seria interessante explorar essas indicações.

Procurei informações na internet sobre Colette, sobre esse romance, sobre outros que ela escreveu, não encontrei muita coisa, mas dei com o livro. E comecei logo esta nova tarefa.

Eu sei que parece precipitado [e talvez seja mesmo] escrever sobre um romance do qual nem bem terminei a primeira parte. Mas, sabe aquela leitura que te prende já nas primeiras linhas? Foi o que aconteceu comigo e A Vagabunda. Estou me deixando levar por essa surpresa. Não criei expectativas, apenas comecei e a leitura está fluindo.

O que Colette escreve que me deixou assim agitada, eufórica para compartilhar esta leitura? Ou, como Colette escreve?

A vagabunda em questão é Renée, atriz, escritora e dançarina de music hall que abandonou o marido, um pintor, depois de suportar por bastante tempo as traições dele [mas isso a gente só descobre na medida em que a conversa com Renée segue]. É isso que desde o começo tem me entusiasmado. Colette conta a história pela voz da própria personagem, tudo é narrado em primeira pessoa. Mas não tem um histórico de vida como se o início das venturas e desventuras de Renée coincidisse com o romance, as lembranças surgem, as coisas acontecem enquanto a vida vai seguindo. Ela nos descreve as estações do ano, seu apartamento, o lugar onde trabalha, as pessoas que encontra, as conversas que tem com seus amigos sem ter uma ordem no que acontece.

Sinto-me conversando com Renée, indo passear com sua cachorra ou sentada ao seu lado ouvindo essas histórias. Ela é uma mulher emancipada, que teve de lidar com a separação, com as cobranças, com a culpa [que os outros, inclusive alguns amigos, lhe imputam] sobre as traições do marido. E Renée segue, e acostuma-se com a solidão.



vagabunda, seja, mas resignada, resignada como estes que aqui estão, companheiros, irmãos, ao círculo vicioso do destino...


meu deus! como eu era jovem e como o amava, como amava aquele homem! e como vim a sofrer!


oh! poderei procurar por toda parte, por todos os cantos, debaixo da cama; não há vivalma aqui, ninguém a não ser eu. o grande espelho do meu quarto já não devolve a imagem maquilada de uma boêmia de music hall, reflete apenas... apenas eu.


É sempre com um grande suspiro que fecho a porta de casa. suspiro de fadiga, de tédio, de  alívio, ou de angustiosa solidão? É melhor nem procurar saber, é bem melhor!